Diana de Temíscira: dos Quadrinhos para a Mídia

Esta matéria foi vinculada, na íntegra, na minha revista online ZINT, sendo compartilhada aqui apenas em parte. Para lê-la completa (um especial de 14 páginas), basta utilizar o player no final da postagem.


A super-heroína Mulher-Maravilha é uma das personagens femininas mais importante e conhecida de todos os tempos. Criada em 1941, a heroína da DC Comics completou 75 anos de existência nos quadrinhos em dezembro de 2016, mesmo ano em que ganhou sua primeira adaptação cinematográfica.

Ao longo de todos os seus anos de vida, a essência de uma das personagens mais icônicas dos quadrinhos foi transformada, traída, transgredida, refeita e edificada ao longo das mais variadas representações nos quadrinhos, na televisão, nas animações, nos games, e agora, no cinema. Independente de qualquer afirmação história ou de juízos de valor, a personagem já nasceu com um contexto mais interessante do que seus colegas de editora, sendo um reflexo do que seu criador e do mundo em que ele estava inserido compreendiam na época.

 

A FRENTE DE SEU TEMPO

A primeira edição de "Mulher-Maravilha"
A primeira edição de “Mulher-Maravilha”

Criada pelo psicólogo e suposto inventor do polígrafo William Moulton Marston, a Mulher-Maravilha chegou aos quadrinhos em uma época onde a grande maioria dos heróis protagonistas das HQs eram homens.

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Inicialmente, Marston trabalhava como psicólogo consultor da DC Comics, ajudando os editores da época, Max Gaines e Sheldon Mayer, nas decisões editoriais que agradassem o público mais adulto.

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O psicólogo era uma figura folclórica a parte e com pensamentos muito a frente de seu tempo, vivendo com duas mulheres: sua esposa, Elizabeth Holloway Marston, e uma ex-aluna de quando era professora, Olive Byrne.

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APRESENTANDO A MULHER-MARAVILHA

Com uma história fantasiosa que envolvia origens relacionadas à mitologia grega, a personagem foi apresentada ao público em All Star Comics nº 8, no outono de 1941. Estabelecendo a origem da personagem como uma guerreira amazona que vivia em uma ilha paradisíaca afastada do mundo violento e podre dos homens, Diana era filha de Hipólita, a rainha amazona.

A “fantastic 1st issue” da Mulher-Maravilha, lançada em fevereiro de 1987

Entretanto, a paz existente na ilha é interrompida quando o capitão Steve Trevor cai de avião na terra das guerreiras, trazendo a notícia de que uma guerra alastrava o mundo humano. Em uma missão de salvação para ajudar os combatentes americanos, Hipólita decreta que a vencedora de um torneio de lutas seria a amazona escolhida a adentrar a guerra e colocar um fim a destruição e violência do homem. Quando Diana consagrasse campeã, sua mãe lhe costura um uniforme vermelho, azul e branco, antes que a personagem deixasse a Ilha Paraíso para combater o fascismo por meio da representação do feminismo.

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A ERA DE PRATA

A era de prata, período que compreende as histórias dos anos 50 até meados dos anos 70, foi um uma das eras em que todos os personagens de quadrinhos foram mais modificados. Tais transformações foram causadas devido ao Comics Code Auhotity, um código estipulado nos Estados Unidos e que visava controlar e censurar o conteúdo publicado nas HQs, uma vez que as críticas referentes a violência, ao vocabulário e ao sexo presente as histórias, tornavam os quadrinhos produtos que contribuíam para a delinquência juvenil.

O código foi responsável por revitalizar o mercado, já que os quadrinhos que trabalhavam temáticas mais pulp, como as histórias de terror, as ficções científicas e as narrativas de gangster, foram as que mais sofreram repressão. Com isso, os gibis de super heróis passaram a dominar o mercado mainstream, mas também sendo obrigados  se adequarem editorialmente as mudanças impostas.

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A MUDANÇA DE MÍDIA

O ano de 1975 foi um importante marco para a Mulher Maravilha. No dia 7 de novembro, o canal norte-americano ABC estreava o primeiro capítulo da série Wonder Woman. A produção televisiva, estrelada por Lynda Carter, foi a terceira tentativa em transpor a personagem para a televisão.

Trajando o icônico uniforme, "Wonder Woman" estreou na televisão em 1975
Trajando o icônico uniforme, “Wonder Woman” estreou na televisão em 1975

O primeiro episódio da série, no entanto, foi um telefilme feito, junto a outro episódio de duas horas. Nesse enredo, o ano é 1942.

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A série, no entanto, durou apenas até a terceira temporada, quando foi cancelada mais uma vez. 

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TENTATIVAS PRECEDENTES

Anteriormente à série Wonder Woman, houveram duas tentativas de levar Diana para as telinhas. A primeira, em 1967, aproveitava do gigantesco sucesso da série de tv Batman, estrelado pelo recém falecido Adam West. O produtor do programa, William Dozer, encomendou um script para um piloto, sendo reescrito por Stanley Ralph Ross, também envolvido com Batman.

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A segunda tentativa chegou a ser exibida na televisão. (…) A produção, no entanto, foi um fiasco. Interpretada por Cathy Lee Crosby, a Mulher Maravilha do telefilme não usava o uniforme icônico da personagem (e sim uma espécie de vestido-austronauta-futurístico sobre uma legging), não possuía nenhuma habilidade super-humana (embora andasse por aí com uma vara de atletismo como arma), e era loira.

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AVENTURAS DO SUPERBOY

Quando Smallville – As Aventuras do Superboy estreou na grade da The WB, posteriormente The CW, e começou a montar a sua própria versão da Liga da Justiça, Diana era uma das personagens cotadas para fazer aparição em Pequenópolis. Unindo-se aos personagens já estabelecidos pela série, como Oliver Queen, o Arqueiro Verde (Justin Hartley), e Arthur “AC” Curry, o Aquaman (Alan Ritchson), a Mulher Maravilha nunca chegou a visitar Clark Kent (Tom Welling).

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ELA É UM AVIÃO

Em 2005, o diretor Joss Whedon, responsável por Os Vingadores e toda a elaboração do Universo Cinematográfico da Marvel, escreveu um roteiro para um filme de Mulher Maravilha. O projeto, que também seria dirigido por Whedon, levou alguns anos para ser finalizado e nunca chegou a ser produzido, levando o diretor a ir buscar emprego na Marvel.

A ideia inicial do filme era mostrar Diana nos tempos modernos, e contar um pouco de sua origem. Com o script nunca aprovado, o filme foi engavetado. Porém, 11 anos depois, no início do mês de junho de 2017, o roteiro vazou na internet, causando ultraje entre as pessoas.

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QUASE LIGA DA JUSTIÇA

Um ano após a Marvel Studios dar o pontapé em seu próprio Universo Extendido Cinematográfico, com Homem de Ferro (2008),a DC deu início à produção de Justice League Mortal. O filme seria dirigido pelo incomparável George Miller, responsável pela franquia Mad Max, e traria, pela primeira vez na história, toda a Liga da Justiça reunida.

De todas as produções da DC que acabaram sendo canceladas, este foi o filme que chegou mais perto de ser filmado, tendo reunido todo o seu elenco para uma foto épica pouco tempo antes do início das filmagens. A película contava com D. J. Cotrona como o Super-Homem, Armie Hammer (que hoje é constantemente relacionado a rumores de que será um dos Lanternas Verdes no vindouro filme d’A Tropa dos Lanternas Verde e Liga da Justiça) como Batman, Adam Brody como o Flash, Commom como o Lanterna Verde, Santiago Cabrera como Aquaman e Hugh Keays-Byrne como O Caçador Marciano, Ajax. Justice League Mortal ainda teria sua própria Mulher Maravilha, que ficou a encargo da atriz Megan Cale.

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DE VOLTA À TV?

Com Adrianne Palicki, a Diana de "Wonder Woman" possuía três alter-egos
Com Adrianne Palicki, a Diana de “Wonder Woman” possuía três alter-egos

Sem ver a luz do dia desde o fim de Wonder Woman, em 1975, a Mulher Maravilha continuou sem sorte. Agora no século 21, no final de sua primeira década, dois novos projetos prometiam dar vida para a heroína.

A primeira era Wonder Woman, que após ser rejeitada pelas maiores redes de canais, foi selecionada pela NBC para ganhar um episódio-teste. Estrelada por Adrianne Palicki, a série não passou pelo piloto de aprovação, sendo cancelada e engavetada. Enquanto Adrianne encontrava um novo emprego na ABC, como a Harpia/Bobby, em MARVEL’s Agents of S.H.I.E.L.D., o episódio piloto vazou na internet pouco após o seu cancelamento.

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A segunda tentativa contemporânea, ao contrário do unaired da NBC, nunca saiu da pré-produção. Amazon, projeto da The CW,  que dava os primeiros passos para estabelecer o seu império de super-heróis da DC, exploraria as origens da heroína, tendo Temíscira como seu pano de fundo.

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DIANA ANIMADA

Em contra partida à falta de sucesso em transpor Diana mais uma vez para a TV (ou fazer sua estreia nos cinemas), a personagem tem tido um bom sucesso entre os filmes animados e os desenhos. Ao longo dos anos, a Mulher Maravilha já foi vista em 16 filmes animados, entre eles o homônio Mulher Maravilha (2009), Liga da Justiça: Crise nas Duas Terras (2010), Liga da Justiça vs. Os Jovens Titãs (2016) e LEGO Batman: O Filme (2017).

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O ALVORECER DA JUSTIÇA

Com todas as tentativas de levar Diana de volta a TV, o mundo parecia nunca mais ter a chance de se (re)apaixonar pela personagem. Porém, com o início do Universo Cinematográfico da DC, com O Homem de Aço (2013), as chances de a Mulher Maravilha voltar a ser adaptada aumentaram.

O sucesso moderado do filme estrelado por Henry Cavill no traje do icônico Super-Homem animou a Warner Bros. e a DC em montar, pela primeira vez na história, a Liga da Justiça. O primeiro passo pela essa empreitada ambiciosa foi Batman vs Superman: A Origem da Justiça.

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Batman vs Superman também deu ao mundo o que já se esperava há quase 40 anos. Diana fazia seu majestoso retorno para o mundo live-action, agora no corpo da israelita Gal Gadot, que era conhecida pela grande público por seu papel em três filmes da franquia Velozes & Furiosos. Nesta nova versão, a Princesa de Temíscira havia se aposentado há 100 anos, após perder a fé na humanidade.

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MULHER-MARAVILHA

Foram necessários 75 anos de história para que a Mulher Maravilha pudesse ganhar o seu próprio filme, de uma vez por todas. A película é o resultado de um trabalho árduo da Warner Bros./DC em estabelecer o seu próprio Universo Cinematográfico, em resposta ao gigantesco sucesso do Universo Cinematoráfico da Marvel (o UCM,ou MCU em inglês).

Dirigido por Patty Jenkins, Mulher-Maravilha chegou às telonas estabelecendo recordes e sendo um marco para os filmes de heróis com protagonistas femininas no geral.

Banner promocional para "Mulher-Maravilha", o filme solo da personagem lançado em 2017
Banner promocional para “Mulher-Maravilha”, o filme solo da personagem lançado em 2017

Lançado em 2017, o filme é estrelado por Gal Gadot, como a Mulher Maravilha. Nessa visão, Patty apresenta ao mundo a Ilha do Paraíso, estabelecendo os primeiros anos de vida de Diana, filha de Hipólita (Connie Nielsen). A princesa, a única criança da ilha de mulheres e superprotegida pela rainha, está constantemente tentando ter o mesmo treinamento de uma Amazona. Quando finalmente consegue, é sua tia Antíope (Robin Wright) que fica responsável pelo seu treinamento, afim de torná-la a “melhor Amazona já vista”, extrapolando até mesmo os dotes de sua tia, a maior guerreira até então.

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A escolha da israelense Gal Gadot para interpretar a heroína foi fervorosamente criticada no início, principalmente pela falta de seus atributos mamários e o uniforme que viria a usar em Batman vs Superman. Porém, sua performance no filme de Zack Snyder acabou com qualquer dúvida, estendendo-se para o de Jenkins. Sua atuação, que foi fortemente marcada pelas expressões de ingenuidade, surpresa, incredulidade, esperança e compaixão arrebataram todos aqueles que assistiram à película. Gal, que serviu o exército e foi Miss de seu país, passa a impressão de ser a Mulher Maravilha na/da vida real.

 

SOBRE REPRESENTAÇÃO

O filme de Patty Jenkins acerta na construção da personagem, trazendo uma Diana extremamente cativante. A princesa de Temíscira é forte, doce, poderosa, inocente, decidida e curiosa. A identificação do público com a personagem provavelmente vem do fato de que, mesmo sendo uma semideusa superpoderosa, ela é uma pessoa complexa como qualquer ser humano.

O simples fato da existência de Diana contrapõe a crítica recorrente de que as personagens femininas não dão bilheteria. Com Mulher-Maravilha, que até o momento já conta com mais de US$ 660 milhões de arrecadação em menos de um mês em exibição, fica estabelecido que uma mulher não precisa de um protagonista masculino para existir, mesmo que as inteirações entre a personagem e Steve Trevor tenham se mostrado bastante orgânicas.

Como Amazona, na Ilha do Paraíso/Temíscira, Diana (Gal Gadot) impõe o escudo e a espada Matadora de Deuses. No lado direito, está sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) e sua tia Antíope (Robin Wright), respectivamente a Rainha e a General das Amazonas
Como Amazona, na Ilha do Paraíso/Temíscira, Diana (Gal Gadot) impõe o escudo e a espada Matadora de Deuses. No lado direito, está sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) e sua tia Antíope (Robin Wright), respectivamente a Rainha e a General das Amazonas

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Com toda a história da Mulher Maravilha nos quadrinhos, que esse ano completou 75 anos desde sua criação, toda sua dura jornada pela televisão, e o seu sucesso estreando nos cinemas pela primeira vez, a personagem mostra-se mais forte do que nunca. Empenhando o seu Laço da Verdade, utilizando seus braceletes, com a tiara na cabeça e vestindo a bandeira dos EUA, Diana tem chão pela frente.

Sem o Super-Homem (Henry Cavill) devido a eventos de "Batman vs Superman: A Origem da Justiça" (2016), Diana completa a primeira formação de Liga da Justiça (2017), que também conta com o Batman (Ben Affleck), Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Ciborgue (Ray Fisher)
Sem o Super-Homem (Henry Cavill) devido a eventos de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (2016), Diana completa a primeira formação de Liga da Justiça (2017), que também conta com o Batman (Ben Affleck), Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Ciborgue (Ray Fisher)

Gal Gadot retorna para as telas de cinema no final do ano, com Liga da Justiça. Como parte da Trindade da DC, ao lado do Super-Homem e do Batman, e uma das fundadoras da Liga, Diana está empenhada em ajudar Bruce a reunir todos os meta-humanos que Lex Luthor vigiava em Batman vs Superman, ao mesmo tempo em que dá uma nova chance para a humanidade e volta a vestir o seu icônico uniforme, abandonado anos atrás. As Amazonas também retornam, em flashbacks que buscam estabelecer uma conexão com o vilão da história, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), tio de Darkseid, um dos maiores vilões da Liga.

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Resta agora, aos meros mortais, não-filhos de Hipólita, esperar os próximos capítulos desta animadora e esperançosa história. Uma coisa é certa: teremos bastante Mulher Maravilha pela frente.

Nota do editor: este texto foi escrito por João Dicker, Stephanie Torres e Victor “Vics” Monteiro


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