“I Am Cait”, série-documental do E!, e a questão sobre o que é o (trans)gênero

Não muito tempo atrás, eu escrevi uma postagem sobre a minha experiência em assistir About Bruce, um episódio do reality show Keeping Up with the Kardashians, do canal E!. O capítulo em questão fazia uma revelação sobre o então integrante da família Jenner-Kardashian (Bruce, que na verdade é Caitlyn, ser transgênero) e como foi a reação do “klan” diante disso.

Agora, já sob a sua identidade de gênero correta, Caitlyn Jenner tomou a importante decisão em “fazer algo bom” com a sua voz, fruto da posição social que alcançou devido o reality de sua família. É assim que, junto ao canal norte-americano E!, a ex-atleta começou a produzir I Am Cait, uma série-reality-documental sobre os primeiros momentos de sua vida como transgênero e parte integrante da comunidade LGBT+.

Dividida em oito partes com duração de uma hora cada (com comerciais), a produção vinha com a importante missão de não ser apenas um reality qualquer. Era vital (sim, vital) que o programa também educasse os que assistiam, mostrando o que é transgênero, o que é ser transgênero e como esse é um assunto, literalmente, de vida e morte.

I Am Cait seria, nada menos, que o manifesto de Caitlyn Jenner.

Por ter assistido à About Bruce e visto a entrevista de Cait para o 20/20 (então, ainda sob a identidade masculina), me senti, para dizer o mínimo, no dever de ir acompanhar I Am Cait. A segunda parte desse dever seria vir aqui fazer um follow up, compartilhando um pouco da experiência em conhecer um pouco mais sobre questões de gênero e dar opiniões sobre a construção do programa.

E cá estamos!

A série-documental inicia a sua exibição com o dia de lançamento da capa “Call Me Caitlyn” (Me Chamem Caitlyn, em tradução livre) da Vanity Fair, onde Caitlyn apresenta-se para o mundo através de uma entrevista exclusiva. É a partir daí que começamos a acompanhar de sua vida. Agora, sob o peso de ser uma celebridade mundial e com uma história bem “juicy” para os jornais, revistas e tabloides, dezenas de fotógrafos e paparazzis acampavam na frente do condomínio em que ela vive, fazendo os Jogos Vorazes para conseguir tirar uma boa foto de Caitlyn.

O motivo? Um registro fotográfico da matriarca estava valendo 250 mil dólares (algo acima de 1 milhão de reais, na cotação atual). O resultado? A ex-atleta olímpica acabar por sentir-se forçada a se isolar em casa, precisando elaborar um esquema de troca de carros para despistar qualquer paparazzi que a seguisse, quando precisasse sair. Afinal, o que importava ali não era ela, mas o que ela representava para a comunidade e como ela podia “fazer o bem”, uma frase que repetia constantemente durante o reality. Não era a sua história que importava, mas como ela podia usa-la para mostrar a história de outros transgêneros e dar visibilidade à causa.

Para Cait, o primeiro passo de sua ambiciosa jornada era o mais desafiador: apresentar, pela primeira vez, Caitlyn Jenner para a sua mãe de 80 anos e irmãs. Foi um momento um pouco conturbado, principalmente pelo fato de Esther Jenner, mãe da Cait, ser bastante ligada à Bíblia.

Quando ela, sua família e uma das diretoras do Programa da Criança e Adolescente do Centro de Gênero de Los Angeles, Susan P. Landon, sentam para conversar sobre transgênero, uma das perguntas que Esther faz é se Susan possui uma interpretação para a passagem da Bíblia que fala: “A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher” (Deuterônimos 22:5). Prontamente, Susan explica que não é uma estudiosa da Bíblia, mas acredita que indiferente do que a passagem signifique para as pessoas da época, “Caitlyn é e sempre foi uma mulher“.

Mas com esse obstáculo vencido, era hora de começar a ensinar as pessoas sobre o que é ser transgênero. Mas para poder fazer isso, ela mesma precisava aprender um pouco mais. E assim I Am Cait se desenvolve: o telespectador aprende ao mesmo passo que Cait se descobre e se insere na comunidade.

Somos apresentados, então, à membros desse comunidade que estão há muito mais tempo na luta. Personagens reais. Mulheres que Cait conheceu durante o processo de pré-produção do programa, vindas das mais diversas áreas de especialidades, seja da educação, do entretenimento, da literatura, da saúde… Mulheres que estão tão empenhadas como ela à devolver para a comunidade, em problematizar a questão para a sociedade e ajudar outras pessoas que estão passando pela mesma situação.

Uma das primeiras mulheres apresentadas é Jenny Boylan, escritora e professora universitária em Nova Iorque. Jenny é uma mulher, parte da organização pró-LGBT GLAAD, sigla para Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação, em português. É, inclusive, casada há 27 anos com a sua esposa, uma Assistente Social: 12 anos como um homem e 15 como mulher.

Além de Jenny, ainda temos Candis Cayne, uma atriz, cantora e dançarina. Candis tem 44 anos e começou sua transição em 1995, quando tudo era como um mercado negro. “Você recebia suas aplicações de hormônio num lugar escondido, onde tinha uma batida secreta na porta para poder entrar“, conta.

Candis é, provavelmente, uma das mulheres que mais possui uma visibilidade no setor público. Além de ser a mais recorrente no reality, em 2007 a atriz participou da série Dirty Sexy Money, da ABC. Lá, fez o papel de Carmelita, uma amante transgênero. O papel deu à Candis um marco histórico: ela foi a primeira atriz transgênero à fazer um papel recorrente de transgênero no horário nobre. Desde então, ela já foi vista em Nip/Tuck, Drop Dead Diva e em um papel de três episódios em Elementary, série da CBS sobre Sherlock Holmes.

Nesse transgender squad, somos apresentado ainda à Drian Juarez, uma advogada do Projeto de Empoderamento Econômico do Transgênero do Centro LGBT de Los Angeles; Chandi Moore, uma Ativista Comunitária e Educadora de Saúde, que começou a sua jornada sendo Drag Queen mas logo identificou-se como transgênero; e Jen Richards, escritora e criadora do We Happy Trans, um site focado em compartilhar histórias e positivismo sobre a transição.

Quase que como em uma mesa redonda, que pouco tempo depois é expandido para um momento em que Cait é levado à um Centro LGBT para conversar com outras mulheres trans, as cinco mulheres começam a compartilhar suas histórias de vida, o que funciona como um propulsor para o que I Am Cait mostrará.

Dentre as diversas histórias sobre cada transição, algumas ocorridas ainda nessa década e outras há mais de 10 anos, rapidamente percebemos que ser transgênero é uma batalha diária. Claro., há a questão psicológica, sobre todos os problemas que os transgêneros passam para encontrar suas respectivas identidades de gênero. Mas há um outro problema alarmante: transgêneros eram e ainda são marginalizados, sendo vistos como marginais da sociedade.

Não é difícil encontrar nesse meio várias pessoas que tiveram que se prostituir para conseguir chegar aonde estão. Que tiveram que vender seus corpos porque ninguém empregava pessoas transgêneros, ou porque não havia dinheiro suficiente para arcar com todos os remédios e hormônios necessários para a fazer a transição. Histórias de como a sociedade hétero-normativa, mais uma vez, leva as pessoas que apenas estão tentando se encontrar dentro de seus próprios corpos, à se marginalizarem, apenas para no final, infelizmente, serem tratadas como marginais, e não como o que elas realmente são: pessoas como qualquer outra.

Embora seja nomeado como uma série-documental, o programa é mais um reality show e um reality show é feito de momentos. Um dos mais interessantes é quando Cait leva suas novas amigas para andar de motocross, em uma escola de mulheres para mulheres. Mas porquê isso é tão legal? Em outros momentos, a ex-atleta fez questão de afirmar que só porque é uma mulher agora, isso não quer dizer que vai deixar de fazer o que fazia como homem, como jogar golfe, pilotar aeroplanos ou andar de motocross.

Em outro grande momento á la reality show, é o instante em que Kris Jenner finalmente conhecerá Caitlyn Jenner. A matriarca da casa Kardashian ainda não havia conhecido Cait, e circunstâncias envolvendo a família Jenner-Kardashian pediam que as duas se encontrassem para resolver o atrito que havia sobrado da última vez em que elas conversaram.

Mas a vida pessoal de Jenner á parte, como série-documental, I Am Cait busca

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