Flop: a palavra que deveria ser erradicada da boca do povo

Século XXI. Uma nova palavra começa a tomar a graça das pessoas. Uma palavra que parece resumir toda a carreira de um artista de forma bruta e fria, ignorando sua bagagem. Uma palavra tão simples porém tão carregada de sentido, que causa terríveis pesadelos até mesmo nos fãs mais resistentes.

Inúmeros cantores, principalmente do meio pop, há anos vêm sendo aterrorizados pelo o que os fãs chamam de “flop“. É, na verdade, uma onomatopeia dada para o som da bolha de sabão estourando. Mas porquê? O que “flop” significa? O que ele indica? Porque ele existe? De onde veio? Para onde vai? Muitas perguntas para respostas que você talvez nunca obterá (pelo menos não de forma satisfatória).

A palavra já faz parte do nosso dia-a-dia, parecendo ter grudado na sola do sapato como um chiclete e ter gostado de estar lá (e você, de tê-lo lá). A argumentação e o posicionamento foram colocados de lado, dando a falsa ideia de que só dizer “flop” é suficiente e não necessita de nenhuma explicação posterior para explicar sua razão de ser.

Como exemplo usarei uma cantora que aprecio muito, cuja vida está em constante mira dos tabloides e do grande público. Alguém muito conhecida por sua cara de constante blazé. Loira, uma das divas do pop e mamãe. Alguém que constantemente tiram sarro por… cantar gritando. Descobriu, não foi? Ela mesma. Christina Aguilera.

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“Você a chama de flop, eu a chamo de lenda.”

No cenário musical desde a década de 90 quando participou do Clube do Mickey Mouse, Aguilera começou sua carreira solista em 1999 ao lançar o famigerado hit Genie in a Bottle. Desde então, a loira passou por duas eras bem distintas: a Stripped, lar do hino-aceitação Beautiful, da poderosa Fighter e da feminista Can’t Hold Us Down, com a rapper Lil’ Kim; e Back to Basics, de onde vem uma de suas músicas mais conhecidas mundialmente, a jazzy-blues Candyman. Dois trabalhos que lhe trouxeram fartura e fama, gerando-lhe títulos como “A Voz da Geração“.

No entanto, a carreira de Christina começa a declinar com o lançamento do Bionic, em 2010, um álbum muitas vezes dito como “além de seu tempo” e que foi massacrado pela crítica e pelo público, gerando a famosa teoria conspiratória de que Lady Gaga, na época ascendendo à fama, havia elaborado e sucedido em um plano de sabotagem. Se os rumores são os não verdadeiros, impossível saber. O fato é que o álbum não teve uma receita boa (em críticas ou vendagens) e não chegou a ter meio milhão de cópias comercializadas até hoje. Bionic marcou o início da decaída de Christina, dando-lhe então o título de “flopada“.

Não importa se a loira de 33 anos lance bons materiais, como a recente Say Something do duo A Great Big World, ou possua diversos prêmios e excelentes vendagens. Sua carreira está fadada a isso. Pelo menos é o que dizem os haters, e os fãs parecem concordar ao esperarem que “esse álbum não flope“, quando o Lotus estava prestes a ser lançado, em novembro de 2012. Coincidentemente ou não, o álbum não vingou e acabou servindo apenas de mais munição para as pessoas.

Mas porque “flop“? O que faz dela um “flop“? Christina já ganhou quatro Grammy Award (4 a mais do que você jamais verá, convenhamos), além de outros 75 prêmios e mais de 200 indicações, como “Melhor Música Original” no Golden Globe 2013. Em seu currículo, ela ainda possui dois álbuns no topo da Billboard 200 (sendo que todos os cinco alcançaram o TOP 10) e quatro singles #1 em carreira solo e um em featuring, com Moves Like Jagger, do Maroon 5.

Ainda há, é claro, seus mais de 50 milhões de álbuns vendidos mundialmente, a contínua permanência nos títulos de “A Voz da Geração” e “Artista feminina que mais vendeu na década dos 2000“, e o seu sucesso (e cachê) como mentora do reality show The Voice, amado pela crítica e pela audiência. Chega, né?

Com tudo isso em seu currículo, acumulado ao longo de 15 anos, o que torna Christina Aguilera digna do título de “flopada“? Só o fato de que seus últimos dois álbuns não foram um sucesso como os primeiros três? Toda sua bagagem deve ser ignorada e a palavra tatuada em sua testa permanentemente?

É mais do que óbvio que Christina não é a única que sofre com isso. Todos os artistas parecem estar sofrendo do mesmo evento, mesmo que no passado tenham arrastaram centenas de milhares de pessoas aos estádios.

Britney Spears é um perfeito segundo caso, com o recente Britney Jean. Assim como Lady Gaga, que antes fazia um estrondoso barulho no cenário musical e hoje ninguém parece ligar muito para seus lançamentos e suas extravagante escolhas de roupas.

Justin Timberlake com a segunda parte do The 20/20 Experience também não vingou, vendendo cerca de 1 milhão de cópias nos 8 meses desde que chegou as lojas, sendo que a primeira parte vendeu a mesma quantidade em sua semana de lançamento.

Outros grandes cantores também tiveram suas carreiras ridicularizadas pelo “flop“, como Madonna com o MDNA e Mariah Carey, que recentemente está tentando emplacar com seu mais recente álbum depois do não tão sucedido Memoirs of an Imperfect Angel.

Todos os nomes citados acima possuem uma carreira sólida e um nome de peso, com milhões de álbuns vendidos, inúmeros prêmios, indicações e títulos, que, eventualmente, tiveram suas testas tatuadas com a palavra “flop“. Uma vendagem baixa do esperado parece ser suficiente para um dilúvio de comentários que carregam essa única palavra. Mesmo que não explique.

Na verdade, ela não faz qualquer sentido. A palavra talvez funcione para alguém que explodiu com um único single e depois sumiu, passando a vender picolé na praia pra comprar o pão do dia seguinte. Talvez.

Em sua essência, “flop” não pode (e nem deve) ser empregada como vem sendo. Com todo o ódio e horror que carrega, desvalorizando o trabalho prévio do artista, desqualificando sua jornada e o suor derramado durante todo o processo e os muitos anos em ativo.

Se o artista errou, seja lá como, onde e porquê, faz parte da vida. Ninguém acerta em todas as tentativas. Eles não são seres perfeitos, então porque esperar nada além de perfeição deles? Se você errou em algo relacionado ao seu trabalho, aposto que você não se intitula como “flop“, assim como espera que os outros não o façam. Então porque está tudo bem em rotular (porque É um rótulo) o artista?

Usar a onomatopéia para “criticar” o trabalho de alguém  ou desqualificar sua carreira não só é injustificável (se não concorda, duvido que uma pessoa que a use elabore um argumento bem embasado para justificar o uso do rótulo) como tem como consequência um certo fenômeno, extremamente perigoso, destrutivo e repulsivo: a briga incompreensível e infantil de um fã contra outro fã. Mas isso é assunto para outra edição.

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