“Emerald City” está cancelada, mas sempre continuará no meu coração

O mundo de Oz sempre foi bastante fascinante para mim. Embora eu não tenha nenhuma memória sobre a animação na minha infância, a jornada de Dorothy até a Cidade das Esmeraldas sempre esteve vagando na minha cabeça. Então eu assisti o musical, aquele clássico de 1939 estrelado por Judy Garland, e o fascínio aumentou.

Ainda que o Mundo Mágico de Oz ganhe algumas adaptações audiovisuais ao longo dos anos, havia um tempo desde que não se via uma série televisiva baseada nas histórias de L. Frank Baum. Mas a NBC mudou isso no início de 2017, com a estreia da série Emerald City (Cidade das Esmeraldas, em tradução literal).

Com 10 episódios, Emerald City faz uma releitura da famosa história da pequena Dorothy. Aqui, ela é uma jovem adulta, latina e enfermeira, desesperada para descobrir porque sua mãe a largou na porta de dois fazendeiros no interior de Kansas. Quando uma tempestade atinge a cidade em que mora, a pequena Lucas, Dorothy Gale vai parar em uma terra estranha conhecida como a Terra de Oz, governada por um homem que se autointitulou O Mágico de Oz e que baniu a magia em prol da ciência. O que ela não esperava era acabar se tornando o estopim de uma guerra silenciosa que vinha acontecendo há anos, se tornando inimiga não só do Mágico, como também de West, a Bruxa Má do Oeste, e Glinda, a Bruxa do Norte. E é no meio disso que Dorothy vai descobrir que a sua vida se entrelaça muito mais nessa história do que poderia jamais prever.

Para começo de conversa, é preciso já deixa algo bem claro. Emerald City é a melhor série do planeta? Não. Na verdade, está longe disso, de uma visão processual de roteiro. Os primeiros momentos da série são um pouco confusos, cheios de detalhes e mal conectados. Mas acredito que ela vai melhorando com o tempo, ficando um pouco mais fluída ao longo de seus 10 episódios. Mas não estou aqui para apontar os erros que a série faz, e sim o que me chamou atenção na produção.

Emerald City faz um releitura bastante interessante de Oz, dando um Q menos “felizes para sempre”, para dar espaço a um mundo mais Game of Thrones, com guerras, mortes, sexo, tortura e sangue (embora o teor disso seja bem menos pesado e sombrio do que a série da HBO). Através de Dorothy, nos deparamos com um mundo onde a magia foi banida e a Terra de Oz foi tomada pela tirania de um homem que tem um ego inflado e frágil, e causou a morte de quase todas as bruxas.

Nesta realidade, apenas Glinda e West estão vivas, mas foram forçadas a viver sobre outros trabalhos. Glinda tornou-se reclusa, e uma espécie de Madre Superiora para um orfanato de meninas. Lá, ela ensina todas as garotas diversos dons, entre eles o de prever e analisar o futuro, afim de auxiliar O Mágico a governar a Cidade das Esmeraldas. Enquanto isso, West é a Madame de um prostíbulo, acabando por se tornar uma viciada em ópio e utilizar de sua mágica escondida, embora continue culpando a mágica pela trágica morte de suas companheiras bruxas.

Quando Dorothy aterrisa em Oz e acaba matando East, West fica desesperada por vingança, e Glinda vê uma oportunidade para botar seus planos em prática, utilizando toda a informação que suas garotas reuniram ao longo dos anos trabalhando para O Mágico, um homem de grande poder e dono de uma mágica chamada Ciência. Porém, quando ele descobre a conspiração para lhe tirar do poder, o Mágico logo começa a dar moção aos seus próprios planos para acabar de uma vez por todas com as Bruxas, ao mesmo tempo que se preocupa em derrotar mais uma vez a Besta, que acredita ser o resultado da morte de East e a aparição de uma misteriosa garota (Dorothy) capaz de matar bruxas.

Os personagens de Emerald City, da esquerda para a direita, de cima pra baixo: Elizabeth, Totó, West, Glinda, Jack, Tip, Langwidere, Mágico, Dorothy, Eamonn, East, Lucas e Anna.

É no meio do início dessa guerra de poder que também conhecemos outros personagens, como o Espantalho. Aqui, ele é salvo por Dorothy após ser crucificado para morrer ao longo da Estrada de Tijolos Amarelos. Com perda total de sua memória, o Espantalho é nomeado por Dorothy como Lucas, e os dois partem em busca de Oz: ele, para recuperar sua memória, e ela para voltar para o Kansas.

A série também apresenta Tip, um garoto que viveu toda sua vida no poder de um feitiço, sendo, na verdade, uma garota. Tip, no entanto, detesta ser uma garota, tendo sempre se identificado como um garoto (alô transgênero?), unindo-se então a West e seus poderes, com a ideia de ser mais uma vez transformado em um garoto, e desta vez de forma permanente.

E temos Jack, ex-melhor amigo de Tip, cuja história é entrelaçada com Langwidere, a princesa de Ev. Ao sofrer um acidente que quase lhe custa a vida, ele é “concertado” pela cientista da princesa, fazendo ele virar um Homem de Lata. Sendo o único amigo de Langwidere, Jack tenta ser a consciência da princesa, que é extremamente excêntrica e jurou vingança ao Mágico, após ele decidir salvar apenas os cidadãos da Cidade das Esmeralda na primeira guerra contra a Besta.

“Uma nova Oz nasce.”

É no meio de toda essa história e outros personagens que Emerald City desenrola outras mitologias d’O Mundo de Oz, como a história de Ozma, herdeira legítima de Oz e uma poderosa bruxa. Há também, é claro, a narração do Leão Covarde, e o lado charlatão do Mágico.

Ainda que Emerald não faça um trabalho excelente com o seu roteiro e narração, resultado em uma recepção baixa da crítica e constantes quedas de audiência, levando ao seu cancelamento, a série consegue se exceder em um outro quesito. E é o principal motivo pelo qual eu escrevo.

Emerald City tem um visual extremamente bem trabalhado. Sua fotografia é simplesmente “de morrer”, apresentando locações com paisagens belíssimas e efeitos especiais que excedem a imaginação e entregam a Oz um Q bastante fantástico, mágico e belo. E ainda há toda a preocupação com objetos, acessórios, roupas…

Bastante preocupados com o lado estético, os primeiros episódios dão bastante ênfase na utilização de cores, que mostram ter significado. East é representada pelo Vermelho, e é uma personagem bastante forte, que usa de seus poderes para torturar e punir as pessoas, e é extremamente má e tirana. West usa Preto, possivelmente por estar sempre se sentindo perdida, e ter essa culpa de ter sido o motivo que resultou na morte de outras bruxas, além de ter terminado como dona de prostíbulo e viciado em ópio; isso sem contar, é claro, o fato dela também ser conhecida como A Bruxa Má do Oeste. Glinda, por outro lado, é representada pelo Branco, dando uma ideia de pureza, embora ela seja uma bruxa com fortes ideias e bastante ríspida e rígida com a sua irmã West. Enquanto isso, a cor designada para Dorothy foi o Amarelo, dando aquela ideia de esperança e força.

   

Emerald City pode não ser a melhor série do planeta, mas toda a sua visão e releitura são bastante interessantes de serem assistidas, tornando a série um belo espetáculo. O mais curioso de tudo isso é ver que o programa se assemelha mais a visão adulta e sombria presente no livro Wicked: A História não Contada das Bruxas de Oz (que também é uma releitura), do que propriamente da franquia literária de L. Frank Baum.

É uma verdadeira pena que Emerald City não tenha pegado o interesse das pessoas e tenha sido cancelada. Vai fazer falta…

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