A misteriosa e curiosa história de “Não Me Abandone Jamais”

No começo dessa semana eu assisti um filme chamado Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go, no original). A produção é uma dessas que não estreiam no cinema e você só sabe da existência por conta dos envolvidos (ou se você estiver procurando algo específico), que no meu caso foi a Keira Knightley.

Contando também com Carey Mulligan e Andrew Garfield no elenco, o filme foi lançado em 2010 e é uma adaptação cinematográfica de um livro de mesmo nome, escrito pelo autor nipo-britânico Kazuo Shiguro.

Qual o motivo de eu estar falando desse filme? Ele é muito bom? Talvez. Na verdade, o que me fez vir aqui comentar sobre ele foi o curioso enredo. Não cheguei a ler o livro, mas fiz algumas pesquisas que mostraram que a história é bem semelhante e os problemas presentes na obra também estão no filme.

Chama a polícia do spoiler que esse texto tá digno de cadeia!

 

Desde o primeiro momento em que você começa a assistir Não Me Abandone Jamais, algo te deixa em constante dúvida e desperta uma curiosidade, provocando uma tentativa desesperada de entender o que está acontecendo. A história começa a ser retratada como o público já tivesse ciência dela, vindo a ser explicada aos poucos e durante o resto da película.

Nessa produção, somos apresentados à Kathy H (Mulligan), a narradora-personagem. Enquanto assiste um de seus amigos entrar em cirurgia e a explicar que ela é uma Cuidadora para os Doares, Kathy começa a fazer um tour pelos anos anteriores, começando por sua infância no internato Hailsham, cuja diretora é a Senhorita Emily (Charlotte Rampling), onde a história tem início.

Rapidamente percebemos que aquele internato não é um internato qualquer (e no começo eu pensei que tratava-se de uma história que iria se passar durante a caça aos judeus). As crianças, que são tratadas o tempo todo como especiais, embora sejam felizes e um tanto livres, são ensinadas matérias que não tem nenhum instinto de sobrevivência, e constantemente são instruídas a manter seus corpos saudáveis, sendo isso o mais importante de tudo. A principal matéria lecionada no internato é Artes, colocando as crianças a produzirem constantemente obras que irão ser avaliada por uma mulher chamada Madame (Nathalie Richard), que seleciona as melhores peças e as coloca em exposição em um lugar chamado Galeria.

Kathy é a melhor amiga de Ruth C (Knightley) e, posteriormente, amiga e interesse amoroso de Tommy D (Garfield), um menino que sofre bullying pela sua falta de manejo nos esportes e nas artes. Quando Kathy e Tommy desenvolvem uma amizade mais próxima, Ruth fica com inveja e começa a demonstrar interesse pelo menino, que acaba namorando pelos anos seguintes.

Nesse meio tempo, uma nova Guardiã (nome dado às professoras) chega ao internato. Desde os seus primeiros dias, a Senhorita Lucy (Sally Hawkins) mostra-se um pouco relutante com o lugar e encontra dificuldade para entender certos comportamentos e regras no local. Pouco depois, ela revela para crianças uma peça importante do quebra cabeça: nenhuma delas iria se formar e virar alguém na vida adulta. Na verdade, nenhuma delas iria ultrapassar a vida adulta.

Ao atingirem a maioridade, esses então jovens adultos são mandados para residirem brevemente em outros lugares antes de serem chamados para “doarem” seus órgãos. Essa doação iria acontecer diversas vezes ao longe de suas curtas vidas, até o ponto em que eles não pudessem mais doar (em outras palavras: até quando eles morressem doando/por doar).

Alguns desses jovens, no entanto, pode se voluntariar a serem Cuidadores, pessoas que iriam auxiliar os Doadores durante o processo e servir a eles como uma espécie de família. Essas pessoas iriam ter suas doações atrasadas, mas não escapariam do final trágico que suas vidas foram criadas para ter.

Aqui as perguntas começam a se amontoar (e muitas delas ficam sem respostas, mesmo após o final do filme) e outras coisas começam a fazer sentido. Diferente do que eu pensava no começo, o filme trata-se de uma distopia dramática. Mas porque as crianças são tratadas dessa forma? A sociedade está bem com esse cenário? Qual a história por trás dessa? Qual a história toda?

É quando eu lembro da retrospectiva inicial do filme. Lá ficamos sabendo de uma informação, que nessa altura do filme entendemos que o seu significado é explicar que estamos assistindo à uma “realidade alternativa”: na década de 50, a sociedade deu grandes avanços na medicina, fazendo que por volta da década de 70 a expectativa de vida ultrapassa os 100 anos. Aquelas crianças são, na verdade, clones, criados e desenvolvidos para servirem de “backup” para os seus Originais, quando eles adoecerem e necessitarem de algum outro órgão (se você lembrou de um outro filme, e o nome dele é A Ilha, não se preocupe, aconteceu o mesmo comigo). Assim, após os 18 anos, as crianças, agora jovens adultos, começam a “doar” seus órgãos para esses Originais, que nunca viram eles e vice-versa. Muitos desses Doares não resistem à primeira doação e morrem, enquanto outros conseguem chegar à terceira ou a quarta.

Após Kathy, Tommy e Ruth completarem a maioridade e se mudarem para suas novas casas provisórias, a relação dos três torna-se um tanto perturbada. Tentando fugir da toxidade de Ruth e de ver ela e Tommy juntos, Kathy se inscreve para ser uma Cuidadora, indo embora logo depois. Com a ida de Kathy, ela e Tommy passam mais de 10 anos sem se ver. Nesse mesmo tempo, Tommy e Ruth já haviam se separado e estavam o mesmo tempo sem ter notícias um do outros, embora Ruth continuassem acompanhado cada passo de seus amigos.

Quando Kathy esbarra com Ruth durante um de seus serviços e reconecta-se com a amiga e, posteriormente, com o amigo, Ruth conta que só ficou com Tommy por ciúmes, e que antes de morrer, queria fazer uma coisa boa. Assim, ela relembra da época que ainda viviam juntos, dos rumores de que se duas pessoas provassem o seu amor verdadeiro à Madame, elas poderiam ter suas doações atrasadas para poderem viver alguns anos juntos.

Ruth então dá à Kathy e Tommy o endereço da Curadora, pedindo que eles vão visitá-la e provar o quanto se amam. Segurando-se naquele fio de esperança e acreditando que as obras de artes serviam para olhar dentro de suas almas e dizer se eles estão ou não realmente apaixonados, os dois partem nessa curta viagem, carregando os montantes de artes feitos por Tommy, agora um pequeno artista.

É ao chegar na casa da mulher que eles descobrem a cruel verdade: nada daquilo é verdade. Nunca existiu essa oportunidade e nunca existiria. As obras de artes não eram para olhar dentro de suas almas, mas saber se eles se quer possuíam uma.

Os clones são vistos como nada mais além de clones, e nenhuma humanização é acreditada haver dentro deles. Aos poucos é explicado que Hailsham foi um internato de clones diferente de todos os outros espalhados pelo mundo. Enquanto nos outros essas crianças eram tratadas de forma inumanas, sendo constantemente maltratadas e tratadas como animais (que não é mostrado em nenhum momento, apenas citado), as de Hailsham eram realmente especiais, parte de um experimento encabeçado e acreditado pela Senhorita Emily.

Ela defendia que aqueles clones eram muito mais do que isso, e que assim como todos os seres humanos, eles também possuíam humanidade dentro de si. As obras de artes que desenvolviam nas aulas de Arte eram para averiguar se eles possuíam almas e mostrar às pessoas/aos Originais e ao Governo que aquele era um fato. Mas quando os Originais começavam a adoecer ou morrer, eles não se importam com isso, e para poder ter mais tempo de vida, optavam por virar a cabeça e ignorar seus clones, fingindo que eles (e os problemas dessa realidade) não existiam.

Após essa revelação, Kathy e Tommy vão embora, e uma cena segue-se de Tommy completamente perdendo a cabeça, gritando em desespero com toda a força de seus pulmões. Pouco depois, o rapaz morre durante sua terceira doação, sendo justamente essa a cena de quando Kathy começa a contar a sua história, é a cirurgia dele que ela está assistindo.

Em luto, Kathy faz uma pequena viagem para Norfolk, um lugar onde ela acredita ser todo o centro de suas memórias. Apesar de tudo, ela aprecia os anos que teve em Hailsham e é eternamente grata por pelo menos ter tido uma infância. É, acima de tudo, grata pelo tempo que teve com Tommy, e que as vezes imagina ele aparecendo no horizonte para ter a vida da qual foram privados. Fica claro que Kathy sabe que suas doações começarão muito em breve, uma vez que terminou seu trabalho como Cuidadora após a morte do amado.

Não Me Abandone Jamais, embora seja construído nos pilares do “triângulo amoroso” de Kathy, Ruth e Tommy, é muito mais do que um drama ou um romance. É um tapa na cara. É algo que acaba te deixando agoniado, mesmo que tudo seja parte de uma ficção.

Perguntas aparecem constantemente nessa distopia que se desenvolve vagarosamente, que permanece misteriosa mesmo após o seu fim. Diversas coisas ficam em aberto, e parece que é feito propositalmente. É uma história silenciosamente conflituosa, cujo desenvolvimento acaba te deixando não só intrigado, mas incomodado ao ver que embora seja uma realidade paralela, uma distopia, aquela poderia ser facilmente a nossa. Pelo menos em alguns aspectos.

O egoísmo e o egocentrismo daqueles que querem viver por muitos anos e pouco se importam com quem precisa morrer para que assim seja; o romance entre os personagens (clones), que tentam viver suas vidas o mais normal possível e constantemente mostram o quão forte o lado humano é neles; a falta de uma luta ou de uma fuga desses clones, que simplesmente aceitam seus destinos sem fazer nenhum embate; a falta de um pingo de humanidade nos médicos que fazem as cirurgias de doações, deixando o paciente completamente aberto e jogado na mesa de cirurgia caso o mesmo não suporte a cirurgia, sendo a primeira e única prioridade manter o órgão viável para transporte e transplante.

Não Me Abandone Jamais é interessante nesse ponto. E estou falando apenas do que eu assisti no filme, com nem duas horas de duração. Fico imaginando como será o livro…

4 Pensamentos para “A misteriosa e curiosa história de “Não Me Abandone Jamais””

    1. Eu acredito que seja porque eles passaram a vida inteira aprendendo a serem nada mais do que isso. Eles foram criados para terem esse fim, tudo que eles aprendiam era serem clones e saudáveis, para seus Originais. Eles não conheciam nenhuma outra realidade, e não havia ninguém que dissesse à eles que poderiam ser mais do que aquilo (embora eles até tenham tentado, desenhando, tentando mostrar uma alma). Então eles simplesmente aceitavam. E vale lembrar também que a escola do filme é uma anomalia, um experimento, uma vez que os outros lugares que “criavam” os clones, os tratavam apenas como um bando de seres sem alma, sem nenhuma humanidade, como um gado. Talvez nesses outros lugares até tenham alguns que tentaram fugir, enquanto que neste caso, a que o filme apresenta, onde os clones eram tratados com um certo amor e carinho, eles sentia que o que eles faziam era uma espécie de bem. Acho que faz algum sentido? rs

      1. Eu não conseguir assistir esse filme no começo , mas o povo que assistir era muito doloroso e muito confuso também, confesso que estou quebrando minha cabeça pra entender melhor! Mas com base no que li aqui deu pra entender um pouco! Mas vou pega esse filme no começo e eu quero Lê o livro!!! Bjs

      2. Eu fiquei perdido mais no começo, tentando entender o que exatamente eu tava vendo (nem o enredo eu sabia), mas acho que depois deu pra ter uma perspectiva melhor. Acho que a intro é a parte chave do filme, e ai o resto é só ir juntando os cacos, principalmente depois da explicação da Madame mais pro final. Se ler o livro, depois dá uma voltinha aqui pra trazer melhores explicações, há!

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